// O ARMÁRIO //

//

O ARMÁRIO

 

ANDRÉ ALVES

 

Parasita Obrigatório

16/07/2016 - 13/09/2016

folha de sala

O meu olhar atravessava o reflexo quente das janelas da camioneta, e ouvia música.

Estranhei o tique nervoso da mão dela, a pressão de um dedo contra o outro, quando em vez, beliscando a perna. Dois dedos da outra mão seguravam um cigarro e os restantes dedilhavam os dentes. Fumar, nela, parecia feio - o que, somado à aparência, a fazia parecer uma drogadita da cidade. Mas na aldeia, nas rudes combinações de feitios e feições, a incongruente relação entre carne e carapaça é mais pacífica.

Vestia preto. E tinha cabelo preto, comprido, com um toque de grisalho. Irrequietamente hirta e apreensiva. Os olhos atendiam a porta da camioneta. Demasiado magra. E aquele bronzeado - talvez resultando do trabalho ao ar livre.

Pensei na possibilidade de haver uma estética do precário. Claro que sim. Aquelas gamas de preto gasto, azul marinho, castanho e cinzentos escuros que se repetem em diferentes lugares deste mundo, lugares de terra batida e cheiro a cimento frio e cantigas de sotaques torpes.

Ela olha para a porta mas não entra - deve ter trazido alguém até à camioneta. É normal, talvez um velhinho de que se ocupa. Há demasiada gente velha nestas bandas. A mim, a velhice nunca me apanhará.

Ah, afinal era aquele rapaz - nunca o vi. Às tantas os dois são de fora. É um bocado taralhouco, o miúdo. Senta-te pá, que ainda cais. Pronto, já vai chatear aquela velhota. Que sorte a dela.

Este olhar para trás… Anda à procura do assento certo. E não é que vai mudar de sítio de novo?! Ainda cai em cima da velhota.

Às vezes também sinto dificuldade em escolher o melhor sítio para sentar.

Vem aqui para trás.

“Posso?”

Retiro um dos auscultadores e acenando a cabeça digo

“Sim.”

E olho a transparência da sua perturbação interior. Volto a colocar o auscultador e olho em frente.

“Boa tarde,” diz no seu sotaque de A arrastado.

“Boa tarde,” digo eu, olhando em frente, sem me mexer.

Exala um hálito acre, seco, aquele cheiro bafiento dos doentes do fígado.

“Está tudo óptimo?”

O meu avô usava óptimo em vez de bem; sempre melhor do que já se está e não apenas melhor do que mau.

“Está tudo óptimo.”

Há um atraso na forma como fala que se torna mais evidente pelo espaço que forço entre as nossas falas. A imagem da retardação mental detecta-se a milhas. Aquela lentidão da linguagem congelada no cérebro. Que miséria. Ele olha-me e os óculos de sol escudam-me. E eu hirto e irrequieto, voltado para a frente e olho na diagonal.

Ofereço-lhe mais silêncio e a frustração. Ele levanta-se, iniciando novamente o ritual de busca do lugar perfeito. E lança-se a outro passageiro, deixando-me a barriga a doer. Estou tão perturbado. Estão a conversar. Aquele rapaz não lhe rejeitou atenção. Ele é refém da solidão e procura repará-la. E tu, defensivo da exclusividade do espaço íntimo da tua viagem.

Mas aconteceu alguma coisa. Pararam de falar. Alguma coisa se deve ter passado. O outro rapaz já só olha em frente! Olhar em frente torna tudo mais invisível. E permanecer hirto camufla o visível. Aconteceu algo sim. Levantou-se outra vez. Ainda cai. O motorista também já não tira os olhos dele no retrovisor. E não lhe diz nada. O pânico é silencioso. Ainda vamos ter um acidente. Isto é absurdo. Completamente absurdo.

De que padecerá esta criatura? Uma demência que acentua a procura sôfrega de qualquer coisa? Também descrevemos a curiosidade assim. Mas há ali uma solidão, não há? A curiosidade não procura diálogo, apenas proximidade. E ele aproxima-se sem freio e afasta-nos com esse despudor. E assim somos trazidos à loucura do louco.

Vem aí outra vez. Devia ter colocado a mochila no banco.

“Está tudo óptimo?”

“Está tudo bem.”

Sou refém dele, dos grunhidos e do hálito fétido. Não há como evitar a perturbação.

E as cabeças atentas ao nosso redor.

Senta-se. Acalma-se. E soltando uns pequenos grunhidos diz.

“Os outros meninos fazem pouco de mim na escola.”

Sinto uma picada profunda. Olho para ele. Não é menino mas é-o. E reajo à injustiça exercida contra ele e a que eu próprio projectei sobre ele. O exemplo da sua vulnerabilidade é infeccioso. Uma infecção que não consegue viver fora do hospedeiro, indefeso e violentado pelo seu desejo. E o meu olhar, refém, encontra nele bravura e carência. Ele vai falar; tanto faz a quem o dá. Por agora serei eu.

Aquela mulher era a tua mãe. Uma mãe que se belisca para se trazer ao real, afastar-se da tua fragilidade e do terror da sua incapacidade para te proteger. Siderada na sua dor, dupla, de ter gerado a dor e a não poder curar.

“E porque fazem pouco eles de ti?”

Monstros; somos monstros, prazerosos na facilidade do embrutecimento. O tolinho da aldeia desperta o poder da violência.

E diz, “Eu queria ter relações sexuais com outros meninos”

E um novo abismo se forma em mim. Ele fala lentamente e o meu escutar é ainda mais lento, num misto de embaraço e piedade e admiração e reflexo. Entre nós não existe mais espaço. A única ofensa à nossa unidade é a húmida e quente lembrança do meu próprio passado danificado, a dor de desejo que não se cumprira, a violência dos outros meninos exercida sobre a minha expectativa e marcada na minha carne. E tu, nessa inocência danificada e torpe, um adubo de humanidade.

As cabeças em volta agitam-se. A camioneta suburbana transformada em expiação com plateia. Uma cena atenta ao meu desempenho, de refém ou associado.

E ele volta-se para mim, com um olhar que vê para lá da carcaça, para ver como o vejo. E agora vejo-o, no tempo, quando se submeteu ao canto do desejo que preencheu todo o seu silêncio.

“Tenho 20 anos. E posso pagar” diz-me, enquanto estende um par de moedas nas mãos. E nem sabe que isto é dinheiro que não basta, que o desejo cobra sempre alto.

“Não podes oferecer dinheiro às pessoas para ter prazer. Isso é ilegal.” Mas queria dizer-lhe que não podes comprar o prazer de qualquer um, que o engano custa pele e segurança. Que o desejo é quem nos vende e quase sempre a mau preço.

A camioneta corre num cenário de orelhas na porta; avança e a paisagem avança. A conversa avança. Mas todos nós ficamos para trás, consumidos pela nossa própria história. O tempo corre e estende a nossa suspensão. És frágil, rompido por defeito ou acaso. E nós seguimos pela paisagem, congelados, fixos, como estátuas no movimento da multidão. E tu, livre do tempo e da corrida da paisagem, viajas na sede do teu desejo pela carne alheia.

Pergunto-me o que são olhos esperançosos quando me perguntas “Onde vais?” É um olhar que soube ter sido cuidado e dado atenção. E eu vou até à última paragem. E desperto quando me dizes “vou sair ali” e te levantas, agitado, não à procura do lugar perfeito, mas da saída, levando os grunhidos improvisados e odor amarelo.

A camioneta assinala a marcha. Encontro o olhar dele na rua, lambendo as janelas da camioneta com olhos de lua, à minha procura, perdido e encontrando-se. E eu esvaziado deixei de estar no espaço. E os seus olhos estão cheios. E penso na sombra, no amasso e violência que se lhe oferecem e que não saberá antecipar. E nisso não vejo novidade histórica, apenas repetição. Desperto para esse horror.

A minha mão belisca a perna.

PT | EN

© O ARMÁRIO 2018